A VERDADE ACEITÁVEL

A
VERDADE ACEITÁVEL
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Edmundo Teixeira

A Verdade desejou visitar o palácio do homem
e um dia se anunciou, tal como ela é:  nua, jovem e bela.  O porteiro embora escandalizado, foi consultar
o ministro mas este, quase sem fôlego, explodiu:

–  Estás louco?  Que seria de nós se a Verdade aqui entrasse?  Enxota esta despudorada!
Embora expulsa, a Verdade continuou desejosa de visitar o palácio do homem e reapresentou-se, com o nome de “acusação”, desta vez trajada de amazona e brandindo o chicote.  Novo choque do porteiro e novo pasmo do ministro:

–  Estás doido, porteiro?  Já pensaste o que seria de nós se a acusação aqui entrasse?  Dize-lhe que está indevidamente vestida!

A Verdade se foi, mas como estava firmemente decidida a visitar

o palácio do homem, voltou, terceira vez, lindamente trajada.  O porteiro se maravilhou ante seu aspecto e formosura:

–  Quem és, gentil criatura?
–  Sou a Fábula e desejo visitar o palácio.
–  A fábula!?  Já vou anunciá-la ao Sr. Ministro.
O ministro veio logo recebê-la, solícito e sorridente e começou a distribuir ordens:
–  Iluminem e adornem o salão!  Chamem os músicos!  A Fábula nos está visitando!

Rejeitada como verdade mesma ou como desmascaramento do falso;  a Verdade só é admitida pelo homem comum sob os agradáveis disfarces da fábula, da parábola e das alegorias….

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