Ralph Waldo Trine
Um amigo que conhece o poder das forças interiores, e cuja vida está guiada por elas nos mais insignificantes pormenores, deu uma sugestão nesta forma: ainda quando estiverdes entre as garras de um urso disposto a despedaçar-te, crava-lhe sorridente teus olhos na cara. Em outros termos: se cedes à adversidade, o mais provável é que a faça dona de ti; porém, se conheces em ti mesmo o poder de dominar as circunstâncias, então a adversidade será sua serva e trocar-se-á em boa fortuna. Se, quando a desgraça chega, sobrelevas com sossego e calma, em breve desaparecerá, se procuras pôr em atividade as tuas poderosas forças interiores durante o tempo que, de outro modo, perderias em queixas, temores e pressentimentos.
Até a fé, a fé absoluta, é a única lei do verdadeiro êxito. Quando reconhecemos o fato de que o homem leva consigo os elementos de triunfo ou de vencimento e que estes não dependem de condições externas, lograremos a possessão de poderes que invertam essas condições em agentes do êxito. Quando chegarmos a esta elevada realização e pusermos a nossa vida em completa harmonia com as supremas leis, seremos capazes de atrair o êxito em curtas, senão em grandes proporções. Poderemos então estabelecer em nós mesmos um centro tão firme que, ao invés de correr daqui para ali, em busca disto ou daquilo, possamos estar quietos em nosso interior e atrair as desejadas condições. Se nos estabelecermos neste centro e nos mantivermos firmes nele, veremos como parece que as coisas vêm pelo caminho apetecido.
A maioria das pessoas da moderna sociedade só atende às coisas práticas e de cotidiano proveito. Quanto mais cuidadosamente examinarmos as leis fundadas nas grandes verdades que estamos considerando, tanto mais veremos que não só são eminentemente práticas, senão que em certo modo são o único prático de quanto no mundo existe.
Pessoas há que se vangloriam de ser muito práticas; porém, muitas vezes são mais práticos aqueles que não crêem que sejam. E por outra parte — os que se ufanam de ser homens práticos, o são muitas vezes menos, pois que ainda que em certo modo o sejam, são absurdamente inábeis em tudo quanto à totalidade da vida se refere.
Que proveito, por exemplo, pode haver para o homem que, materialmente falando, é dono do mundo inteiro e jamais tratou de conhecer sua própria alma? Vemos multidões de homens completamente enganados sobre o conceito da vida real, homens que ainda não aprenderam o a-bê-cê de como deve-se viver. Sao escravos abjectos dos bens temporais, que se crêem donos das riquezas e estão completamente dominados por elas, cujas vidas são absolutamente inúteis para seus semelhantes e para o mundo inteiro; que quando já não podem suster o corpo (agente do qual se relacionam com o mundo material) se ficam pobres, miseravelmente pobres; e incapazes de levar a mais insignificante partícula de suas riquezas, vão-se para a outra vida exaustos e nus.
As boas ações, as desenvoltas qualidades de caráter, as realizadas forças da alma, as positivas riquesas da vida interior, todas aquelas coisas que chegam a ser os nossos bens eternos, não ocupam lugar algum em sua mente e por isso andam privados das coisas verdadeiramente necessárias à vida. E ainda muitas vezes pior que privados. Por que não havemos de supor que, uma vez adquiridos os hábitos, possam perder-se mais facilmente em outra forma de vida distinta da atual. Se alguém deixa voluntariamente que tome vôo determinado vício, não devemos supor que a simples morte do corpo estabeleça condições de perfeição. Tudo tem sua lei, sua causa e efeito. Colhe-se o que se semeia, não só nesta vida, como em todas.
Quem tem por único desejo amontoar bens terrenos, estará bem escravizado a eles ainda depois de sua morte; mas então nem sequer terá o meio de satisfazê-lo. Dominado por aquele vício, será incapaz de pôr seus efeitos em outras coisas, e o desejo insatisfeito atormentá-lo-á duplamente. A sua tortura poderá aumentar ainda ao ver que pródigos herdeiros dissipam riquezas com tanto afã por ele amontoadas. Legou suas propriedades, segundo se diz, a outros sem que lhes possa dizer nem uma palavra acerca de como as empregam. Que loucura, pois, pensar que os bens materiais são nossos! Que absurdo, por exemplo, o cercar umas tantas áreas de terra de Deus e dizer que são propriedade nossa! Nada é nosso até ao ponto de detê-lo. As coisas que às nossas mãos chegam, não chegam para ser possuídas nem muito menos entesouradas, senão para que delas façamos prudente e acertado emprego. Somos simples administradores e como tais ser-nos-ão exigidas contas dos bens que nos foram confiados. A grande lei das compensações, que se faz sentir em todo o mundo, é admiravelmente exata em seus efeitos, ainda que às vezes não possamos de todo entendê-la nem reconhecê-la sequer quando atua em relação conosco mesmos.
Quem logrou a realização de uma elevada vida já não deseja amontoar riquezas nem demasias de outra espécie. À medida que for reconhecendo o fato de que é internamente rico, vai deixando de estimular as riquezas terrenas. Quando realizar o fato de que seu interior emana uma fonte mediante a qual pode pôr em suas mãos, à sua devida hora, o suficiente para prover todas as necessidades, não se afanará por mais tempo em entesourar riquezas materiais que absorveriam toda a sua atenção e cuidado, e assim põe em seu pensamento e emprega o tempo nas coisas reais da vida. De outro modo: primeiro acha o reino de Deus e depois age de maneira que tudo o mais venha por ligação.
É mais difícil um rico entrar no reino dos céus (disse aquele mestre que sem ter nada, teve tudo) do que um camelo passar pelo fundo de uma agulha. Quer isto dizer: se um homem só pensa em acumular tesouros de que por sua demasia não pode desfrutar, ver-se-á incapaz de achar aquele maravilhoso reino com o que todas as coisas são aparelhadas. Que vale mais, ter um milhão de dólares com o cuidado que tal riqueza leva consigo, ou chegar ao conhecimento de leis e forças pelas quais cada necessidade fica prevista em tempo oportumo, e saber que nada justo nos será negado, que a dádiva será proporcionada à petição?
Quem entra no reino deste elevado conhecimento nunca cuidará de levar consigo as insanas espécies que muitos homens disputam hoje em dia por seu mais firme apoio neste mundo, mas sim evitá-las-á como se evita uma horrível laçada. Quando chegarmos à realização dos altos poderes, de atender ao entesouramento de riquezas vãs, que mais estorvam do que ajudam. Tal é o fundamento da verdadeira solução nesta como em todas as fases da vida.
Se as riquezas excedem de certo limite, não podemos empregá-las e chegam a ser um impedimento ao invés de um auxílio, um castigo ao invés de uma bênção. Por toda parte há pessoas que vivem desmedradas e raquíticas, e poderiam viver louçãs e ditosas cheias de perene gozo, se houvessem empregado prudentemente a grande parte da sua vida mal gasta em entesourar.
O homem que entesourar durante toda a sua vida e ao morrer legar os seus haveres para fins piedosos, está num erro do conceito de vida. Não é mérito em mim dar um par de botas velhas ao descalço; porém, sim — suponho que a dádiva seja um mérito — o é o dar um par de botas novas a quem anda descalço no rigor do inverno e se esforça em viver honradamente para sustentar sua família. E, ao dar-lhe as botas lhe dou também o meu carinho; terá dupla dádiva e eu dupla bênção.
O mais prudente emprego que o rico pode dar às suas riquezas é acumulá-las em sua existência moral, em seu caráter, dia a dia enquanto viva. Deste modo, a sua vida ir-se-á ampliando e enriquecendo continuamente, e tempo virá em que se olhe como sendo uma desgraça um homem deixando atrás de si tais riquezas acumuladas.
Muitas pessoas moram em palácios e são mais pobres que aquelas que carecem de teto onde abrigar-se. Pode um homem possuir e habitar um palácio para ele mais miserável que uma choça.
A traça e o mofo são os meios de que Deus se serve para desagregar e espalhar em novas formas o que fora entesourado e não tem oportumo emprego. Existe também uma grande lei continuamente operativa, cujos efeitos são privar do verdadeiro gozo e de suas plenas faculdades a quem entesoura.
Muitas pessoas estão sem cessar afastadas de elevadas e ótimas coisas por causa de aferrar-se às velhas. Se enxotassem o passado, cederiam lugar às novas coisas que lhe chegam. A avareza sempre acarreta prejuízo, já em uma ou noutra forma. O emprego prudente encerra sempre uma remuneração beneficiosa.
Se a árvore mantivesse em seus ramos as folhas murchas, brotaria nela uma nova vida ao fecundo hálito da primavera? Se a árvore está morta, não cairão as ressequidas folhas, pois ela não terá seiva nem brotos novos; porém, se a árvore está viva, é necessário que se despoje da emurchecida folhagem para ceder o posto às verdes folhas.
Lei do Universo é a opulência, lei é a abundante visão de cada necessidade, se não há nada que a isso se oponha.
A vida normal consiste em chegar à plenitude de poder por meio da contínua realização de nossa unidade com a Infinita Vida e Poder, para acharmo-nos na possessão constante de todas as coisas necessárias.
Não entesourando, senão fazendo prudente uso das coisas que chegam a nós, teremos uma sempre renovada provisão delas, segundo as nossas verdadeiras nevessidades. Por esse meio, não só chegaremos a possuir os inesgotáveis tesouros do Infinito Deus, como também, por nosso intermédio, poderão chegar às mãos de outrem.
FIM