BANQUETE E CONVIDOU MUITA GENTE…”
Huberto Rhoden
Outro respondeu: “Comprei cinco juntas de bois, e preciso experimentá-los; rogo-te me tenhas por escusado”.
Um terceiro replicou: “Casei-me, e por isto não posso ir”. Este nem sequer pediu desculpas.
Os mensageiros relataram tudo isto a seu senhor. Ao que este lhes ordenou: “Ide pelos povoados e aldeias e convidai a todos os que encontrardes, cegos, coxos, aleijados, para que se encha a minha casa. E assim se fez.
Mas nenhum daqueles que haviam sido convidados em primeiro lugar provou o banquete.
Aí está um retrato fiel da humanidade de todos os tempos!
Todos são convidados para a grande solenidade, mas nem todos atendem ao convite.
O banquete é o reino de Deus – o reino de Deus, porém, está dentro do homem. É o “tesouro oculto”, é a “pérola preciosa”.
Muitos homens acham que têm coisa mais importante a fazer do que encontrar a “parte boa” que Maria encontrara; andam por demais atarefados com a parte de Marta. Conhecem muitos objetos, mas ignoram o seu próprio sujeito. Realizam tudo – menos a si mesmos…
Longo e árduo é o caminho para esse misterioso. Além de dentro…Sem conta são os percalços que o homem-ego criou no caminho para o homem-Eu…
Todos os homens são convidados pelo Cristo interno – e, não raro, pelos arautos do Cristo externo – para tomarem parte na festa nupcial de sua alma, no consórcio místico entre sua alma e o divino Esposo. Todos, seja qual for a sua profissão ou condição social – lavradores, criadores de gado, homens e mulheres, solteiros e casados, sábios e ignorantes –porquanto “a luz ilumina a todo homem que vem a este mundo”.
Muitos homens, porém, não querem escutar a voz silenciosa da sua própria alma. Não conhecem o tesouro oculto e a pérola preciosa de seu próprio Eu espiritual; só conhecem a ganga de seu ego físico-mental. A luz do Logos, é verdade, ilumina a todos, mas somente aos que recebem em si esta luz divina, é-lhes dado o poder de se tornarem filhos de Deus. Não basta que a luz divina esteja presente ao homem, é necessário que também o homem se torne presente a essa luz.
É tão difícil, no princípio, o homem atender a essa voz silenciosa de dentro, porque os ruídos de fora abafam tudo com as suas brutalidades profanas. O homem obsessionado pela violenta sedução dos objetos materiais – dinheiro, possessões, prazeres, vanglórias, ambições – dificilmente encontra tempo para atender ao discreto murmúrio de sua alma. As quantidades de fora são tão conhecidas, e a qualidade de dentro é tão desconhecida.
E é fácil encontrar escusas para não comparecer ao banquete espiritual. Nunca temos tempo para aquilo de que não gostamos – mas para aquilo de que gostamos nunca falta tempo; e, se faltasse, íamos fabricá-lo. O tempo, a bem dizer, não é algo que exista objetivamente; somos nós mesmos que o fazemos, segundo as nossas predileções. O lúcifer da nossa inteligência é duma incrível sagacidade; justifica habilmente todas as suas complacências; prova com facilidade que o preto é branco, que o círculo é quadrado, que o não é idêntico ao sim. Para tudo quanto a vontade quer, encontra a inteligência um sistema científico ou filosófico que justifique as predileções da vontade
O homem profano se impressiona muito mais com o que tem do que com o que é, os seus teres – campos, animais, mulheres – lhe são visíveis; o seu ser lhe é invisível.
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